E o calor assola o asfalto derretido e preto como as nuvens que espiam do alto do arco do espaço infinito, congestionando o céu no intenso tráfego de seus carneiros de água escurecidos, nesse Janeiro que já entra em seu terço final e conclusivo. Agora volta o futebol na quarta e na quinta, no sábado e no domingo.
Campeonato Regional é sempre um estouro em tiro de festim – faz barulho mas não fura a casca da couraça. Não mata a sede inesgotável por vitória, vitórias e mais vitórias, mas refresca o suadouro de quem passa o dia esquentando os miolos num ônibus lotado, no desperdício da vida que vai escoando na lida perdida escorrendo no balde pingando gota à gota, de hora em hora; em tempo morto que come o trânsito incessante, em sono do corpo que não foi recomposto sem o reforço do descanso da noite bem dormida, quando ela grita por algazarra e acende com o farol dos olhos brancos enlouquecidos o breu da madrugada.
Calor sufocante esse de Janeiro que já levantou seu estandarte tenebroso de terror e medo no atentado que matou gente da delegação de Togo. Como um tersol que entope os dutos por onde as lágrimas escorrem para assim poderem limpar os olhos, um tiro fatal escurece a vista na brutal estupidez de qualquer vida interrompida. Como começar assim? Quem clama por Justiça pode achar que a morte é o preço a ser pago quando falta a luz da providência divina? E, se a gente for pensar no que é desgraça, desgraça não é somente a natureza revirando a Terra em cada abalo sísmico – desgraça é a miséria e a pobreza em que esse mundo corrupto afundou o Haiti. Sinto muito.
Infernal calor esse que infesta essa cidade, mas talvez não seja tão quente como o fogo que incendiou o Pacaembu que ontem ficou lotado: arquibancada, tobogã, numeradas cobertas, descobertas, setores especiais, tudo, tudo, tudo… o estádio todo tomado para ver o primeiro episódio da segunda temporada alvinegra do queridíssimo Ronaldo, assim como o primeiro capítulo na novela que estreia tendo como protagonista redivivo o nosso conhecidíssimo Roberto Carlos. No ano de seu centenário o Corinthians aposta todas as suas fichas no talento de quem já tem experiência suficiente para mostrar apenas a técnica de fazer a bola rolar sem precisar suar as pernas ou passando sebo das canelas.
Calor tórrido que corrói a disposição, deixa a leseira tomar conta de toda a gente de sopetão, entra a lerdeza dentro do ânimo sem explosão, como vulcão de marcha ré, as lavas escorrem pra dentro: porém, cofre sem lastro não para em pé. Mas mesmo nesse forno veranil talvez uma grande fria tenha soprado sua brisa na carreira de Jobson: dois anos de gancho! Difícil de aguentar sem soçobrar, principalmente assim, quando a vida profissional só tá começando. Mas Dodô está aí, de volta, pra mostrar que o futebol, pra quem sabe jogar, nunca faz sumir. Dodô é um grande exemplo, é um daqueles jogadores que só sabem fazer gol de categoria. Bom retorno, camarada!
E pra finalizar: mesmo pra quem já botou na cabeça a ideia do time que vai levantar os Campeonatos regionais a partir dos resultados da primeira rodada; pra quem já tá fazendo bolão pra apontar quem vai faturar a Copa do Mundo da África; pra quem já terminou a recuperação e também pra quem já comprou material escolar; pra quem já gastou o refresco e o descanso das férias e já se sente cansado e mal-humorado; pra quem ainda não entrou no ritmo alucinante dessa cidade e não sacou que o trânsito já tá insuportável; pra quem tá no litoral ou ainda esquiando nos Alpes… só dá pra dizer uma coisa: 2010 começou quente!